Após reassumir a condição de postulante ao Palácio do Planalto em 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a instrução, a dirigentes nacionais do PT, de evitar o lançamento de candidaturas a governador no ano que vem, a não ser nos estados nos quais o nome petista seja favorito no pleito ou, no mínimo, dispute cabeça a cabeça com o adversário mais bem avaliado nas pesquisas. A orientação de Lula, já encarada como determinação por caciques da legenda, é privilegiar alianças para a Presidência da República.

Lula também deseja privilegiar candidaturas a deputado federal, uma vez que é de acordo com as bancadas que são divididos recursos dos fundos públicos e o tempo de TV.

Ao abrir mão de candidaturas a governos estaduais e, em alguns casos também ao Senado, Lula, que pretende ser candidato à Presidência, busca facilitar alianças em torno de seu nome ao Planalto, atraindo principalmente partidos de centro e centro-esquerda que receberiam o apoio do PT em palanques regionais. A estratégia foi definida durante conversa pelo aplicativo Zoom e tem balizado o planejamento discutido pelo “Grupo de Acompanhamento Eleitoral”, nome que batiza o fórum, no WhatsApp, no qual petistas tratam de assuntos referentes a 2022.

Caminho diferente de 2020

A iniciativa é a oposta da colocada em prática pelo partido em 2020, quando, na ocasião, a sigla buscou lançar a maior quantidade possível de candidaturas a prefeito nas capitais e nas grandes cidades. O objetivo não era de fato vencer as eleições, mas usar recursos de campanha e tempo de televisão para, segundo palavras de caciques petistas, “reforçar o legado de Lula como presidente” e “reafirmar a inocência” do petista na Lava-Jato — no ano passado, as condenações nos casos do tríplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia ainda não haviam sido anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

Fragilizado, o PT não elegeu prefeito em nenhuma capital no ano passado, fato inédito desde a redemocratização. E ficou fora do segundo turno em São Paulo e no Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país. No Rio, Benedita da Silva teve 11,2% dos votos e ficou em quarto lugar. Apesar da performance nas urnas, Jilmar Tatto, que recebeu 8,6% dos votos na disputa pela capital paulista e acabou em sexto, avalia que a estratégia foi acertada.

— A eleição municipal serviu para fortalecer o PT e dar musculatura ao reafirmar a inocência do Lula. Estamos colhendo os frutos para 2022. O PT é um partido nacional. Então toda a nossa estratégia é disputar o poder central, que é a Presidência. E, para ir para o segundo turno, ganhar a eleição e governar, precisamos de alianças partidárias — disse Tatto.

— A estratégia do Lula já foi assimilada pelo partido, que tem como foco a Presidência em 2022. Até mesmo candidatos com potencial para disputar o governo ou o Senado cogitam vir a deputado federal para facilitar o projeto nacional — afirmou Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT.

Um dos nomes lembrados por petistas nesse sentido é o do governador do Piauí já reeleito, Wellington Dias, que passaria a mirar a Câmara dos Deputados em vez do Senado, caminho visto como natural após dois mandatos de governador.

— O objetivo é termos uma conjuntura, se possível já no primeiro turno, de compromisso de unidade no campo democrático. Mas, em meio às questões urgentes da pandemia, ainda nem pensei sobre meu projeto político para 2022 — disse Dias.

Como exemplo de aliança regional que poderia facilitar um arranjo nacional, caciques petistas citam a disputa ao governo de Pernambuco. Manter o comando do estado é considerado de fundamental importância para o PSB, legenda do atual governador Paulo Câmara. Os socialistas têm adotado tom cauteloso e ainda avaliam se apoiarão Lula, Ciro Gomes (PDT) ou uma terceira via. O apoio do PT em Pernambuco e outros estados, portanto, poderia facilitar a adesão do PSB à coligação do petista.

Ex-presidente do Senado e cacique do MDB, o senador Renan Calheiros (AL) avalia que a estratégia de Lula é acertada do ponto de vista eleitoral. Ele já defendeu que sua legenda apoie o petista.

— Esse olhar regionalizado vai viabilizar muitas alianças, especialmente no Nordeste, onde muitos do Centrão vão preferir se associar a Lula do que ao presidente Jair Bolsonaro, mesmo que os diretórios nacionais determinem o contrário. É difícil conviver com o PT. Já com Lula, dá para conviver facilmente, pois tem uma compreensão política mais ampla, não à toa ele deu essa orientação. O lulismo é maior que o petismo — avaliou o senador.

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