
Foto: Lula Marques / Agência Brasil/Cristiano Stefenoni
A nova rodada da RealTime Big Data, divulgada nesta quinta-feira (1º), reforça uma divisão que vem aparecendo de forma recorrente nas pesquisas eleitorais de 2026: Lula mantém vantagem entre católicos, enquanto Flávio Bolsonaro amplia a distância entre evangélicos. O dado ganha peso na reta final da campanha porque surge depois de uma sequência de episódios em que religião, fé e disputa eleitoral passaram a ocupar o centro do debate, incluindo a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
A pesquisa mostra Lula com 49% das intenções de voto entre eleitores católicos, contra 33% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Na rodada anterior do instituto, Lula tinha 46%, enquanto Flávio permanecia em 33%. Entre os evangélicos, o movimento foi inverso: Flávio passou de 49% para 52%, enquanto Lula permaneceu em 31%. Entre pessoas de outras religiões ou sem religião, Lula aparece com 47% e Flávio com 33%.
O resultado por religião não surgiu isoladamente. Pesquisas anteriores já apontavam uma diferença expressiva entre os dois grupos. No Datafolha realizado em 22 e 23 de setembro, Lula tinha 45% entre católicos, contra 33% de Flávio. Entre os evangélicos, a situação se invertia: Flávio aparecia com 47%, ante 27% de Lula. Na rodada anterior do mesmo instituto, divulgada em 21 de setembro, Flávio tinha 48% entre evangélicos e Lula, 26%; entre católicos, Lula marcava 43%, contra 32% de Flávio.
Outro levantamento ajuda a dimensionar a distância. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 8 de setembro, Flávio tinha 45% entre evangélicos, contra 27% de Lula, enquanto, entre católicos, Lula aparecia com 43% e Flávio com 34%. Naquele momento, a vantagem de Flávio entre evangélicos era de 18 pontos. No segundo turno daquele levantamento, o senador chegava a 58% entre evangélicos, contra 31% de Lula.
Os números, portanto, mostram uma característica que atravessa diferentes institutos: a religião continua associada a padrões distintos de intenção de voto, embora isso não signifique que todos os integrantes de um grupo religioso votem da mesma maneira. Também é preciso considerar que os recortes religiosos possuem amostras menores do que o universo total das pesquisas, o que aumenta a necessidade de cautela ao comparar pequenas oscilações entre levantamentos.
A polêmica de Nossa Senhora entrou no meio da disputa
É nesse cenário que a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou dimensão eleitoral. A onda de publicações afirmando que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil foi classificada como falsa. Não há evidência de que o candidato tenha apresentado ou defendido uma proposta com esse objetivo. O episódio ganhou força após uma declaração de Flávio, feita anteriormente na campanha, de que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A campanha posteriormente afirmou que a declaração tinha caráter simbólico, relacionado a uma oração durante a posse. O episódio chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Em 30 de setembro, o TSE manteve a determinação para remover publicações que apresentavam como verdadeira a informação de que Flávio retiraria o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. Houve divergências entre ministros sobre a extensão da medida, mas a decisão distinguiu a remoção da informação falsa de críticas e opiniões políticas sobre o episódio.
Na outra ponta da disputa, Lula passou a fazer referências mais frequentes à santa católica. Em comício em Belém, recebeu uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré e a levantou diante do público. No dia seguinte, em Fortaleza, afirmou que, enquanto fosse presidente, Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo a padroeira do Brasil. A movimentação chamou atenção porque o próprio Lula já havia declarado, em outras ocasiões, ser contrário ao uso eleitoral da religião.
A discussão também produziu efeitos nas redes sociais
Monitoramento da Datrix sobre o período de 25 a 28 de setembro identificou forte repercussão do episódio. As narrativas sobre Flávio associadas à suposta ameaça à padroeira tiveram saldo negativo, enquanto parte das menções a Lula o apresentava como defensor da fé católica e da padroeira. O próprio levantamento, porém, mede o comportamento das conversas digitais e não permite estabelecer uma relação causal entre a polêmica e a intenção de voto.
Os números mostram mudança depois da polêmica?
Aqui está um ponto importante para a leitura jornalística. A nova RealTime mostra Lula avançando três pontos entre católicos, de 46% para 49%, e Flávio crescendo três pontos entre evangélicos, de 49% para 52%. A coincidência temporal com a crise envolvendo Nossa Senhora é evidente, mas os dados, sozinhos, não permitem afirmar que uma coisa tenha provocado a outra.
O levantamento AtlasIntel divulgado em 29 de setembro apresenta outro indicador interessante. Na avaliação do governo, a aprovação de Lula entre católicos estava em 48,8%, praticamente estável em relação aos 48,1% da rodada anterior. Entre evangélicos, entretanto, a aprovação do presidente havia recuado de 30,1% para 21,3% em uma semana. Trata-se de avaliação do governo, e não diretamente de intenção de voto, portanto os indicadores não devem ser tratados como equivalentes.
O voto religioso continua plural
A eleição de 2026 também mostra que o eleitor religioso não constitui um bloco único. Católicos e evangélicos apresentam comportamentos diferentes nas pesquisas, mas dentro de cada grupo existem diferenças de idade, renda, região, vínculo institucional, posicionamento político e grau de participação religiosa.
O próprio debate sobre Nossa Senhora Aparecida expôs essa complexidade. A controvérsia colocou em contato duas dimensões distintas: de um lado, o forte valor simbólico que a santa possui para o catolicismo brasileiro; de outro, o discurso de identidade cristã utilizado por parte do campo evangélico. A transformação dessas diferenças religiosas em argumento eleitoral, porém, pode alimentar desinformação e ampliar uma divisão que os próprios dados de pesquisa não permitem tratar como absoluta.
Para o eleitor evangélico, portanto, os números mais recentes ajudam a mostrar onde está o comportamento majoritário do segmento nas pesquisas, mas não substituem a análise individual das propostas, dos valores, da trajetória e das posições dos candidatos. O mesmo vale para o eleitor católico.
Em uma eleição marcada pela presença intensa da religião no debate público, a principal conclusão que os levantamentos permitem sustentar é factual: há uma diferença persistente entre os padrões de voto declarados por católicos e evangélicos, e essa diferença permanece na reta final da disputa presidencial.
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