Crescimento de Cury pode impactar eleição de 2026. - Foto: Divulgação
“Nem picanha, nem fuzil. Eu quero é Rivotril”. A frase que começou a circular pelas redes sociais resume, com ironia, uma sensação que pode estar ganhando espaço em parte do eleitorado brasileiro: entre as promessas econômicas e sociais de um lado e o discurso de endurecimento da segurança pública de outro, haveria quem esteja procurando uma terceira coisa. Não exatamente um novo projeto ideológico, mas alguém que fale de saúde emocional, família, educação, relações humanas e pacificação.
É nesse território que Augusto Cury tenta construir sua candidatura à Presidência da República. Psiquiatra, escritor e autor de dezenas de livros voltados à inteligência emocional, Cury não chega à disputa com a experiência tradicional de um político profissional. Sua candidatura pelo Avante pode parecer improvável quando colocada ao lado de nomes que dominam a política nacional há décadas. Mas justamente essa distância da política convencional pode ser parte de sua força.
Ainda é cedo para afirmar que Cury tenha se transformado em um fenômeno eleitoral. As pesquisas continuam mostrando uma distância considerável entre ele e os dois líderes da disputa. Mas há sinais que começam a chamar atenção: crescimento nas intenções de voto em alguns levantamentos, forte expansão nas redes sociais e uma procura incomum pelo seu nome depois do primeiro debate presidencial da Band. E existe um grupo cuja movimentação pode ser especialmente relevante: os evangélicos.
O candidato que não precisa vencer para fazer diferença
A pesquisa PoderData/Aya divulgada em 27 de agosto colocou Lula com 38% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 35% e, logo atrás, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, todos com 4%. A margem de erro é de dois pontos percentuais. No segundo turno, Lula aparece com 45% contra 44% de Flávio, também em empate técnico. O levantamento ouviu 2.400 pessoas entre 23 e 26 de agosto.
Cury, portanto, ainda não está próximo dos líderes. Mas os 4% ganham outro significado quando observados dentro de uma eleição em que a diferença entre os dois primeiros candidatos é pequena. A questão não é apenas quantos votos Cury pode conquistar. É, principalmente, de onde esses votos podem sair.
Se uma parcela de seus eleitores estivesse inicialmente inclinada a Lula, Flávio ou a outros candidatos, o efeito seria diferente. Da mesma maneira, se Cury conseguir mobilizar pessoas que hoje pretendem votar em branco, anular ou simplesmente ainda não decidiram, seu impacto sobre a disputa será outro.
É por isso que o chamado “efeito Cury” não precisa significar que ele chegará ao segundo turno. Ele pode ser relevante simplesmente por alterar a distribuição dos votos que chegam à reta final.
Na pesquisa PoderData/Aya, os candidatos somam 94% das intenções, enquanto 5% são votos brancos ou nulos e 2% não sabem. Se fosse feita uma conta simplificada considerando apenas os votos atribuídos aos candidatos, Lula teria cerca de 40,4%, Flávio 37,2% e Cury 4,3%. Essa não é a apuração oficial de votos válidos e não pode ser usada para projetar o resultado da eleição, mas ajuda a visualizar como alguns pontos distribuídos entre candidaturas menores podem alterar o peso relativo dos líderes.
O ponto central é outro: Cury não precisa necessariamente “tirar” votos de Lula ou Flávio para interferir na matemática eleitoral. Se conquistar eleitores que hoje estão espalhados entre Caiado, Renan Santos, Zema, Marçal e os demais candidatos, ou mesmo pessoas que ainda não decidiram seu voto, poderá modificar a fotografia da disputa. A pergunta decisiva será: essa movimentação terá tamanho suficiente para alterar quem chega ao segundo turno?
0 Comentários