Sou psiquiatra e todos os dias, recebo famílias que enfrentam a mesma angústia: a escola não sabe como lidar com o filho autista. Não é falta de amor, é falta de preparo. Por isso defendo um projeto de lei simples e objetivo: que todos os profissionais da escola, professores, coordenadores, porteiros, merendeiras, recebam treinamento contínuo, palestras e cursos sobre o transtorno do espectro autista (TEA).
Ter uma escola que inclui, mas não prepara seus profissionais, é como ter um fogão em casa sem o gás: a estrutura está lá, mas falta o essencial para que ela funcione. Incluir não é a solução é um direito. A solução é o treinamento contínuo, que ainda falta na maioria das nossas escolas.
Como costumo dizer aos pais que me procuram no consultório: "Treinar toda a escola não é privilégio, é o mínimo que garantimos como direito da criança autista." Essa frase resume o que defendo há anos na prática clínica e agora também na proposta legislativa.
Uma mãe atípica, que acompanho há algum tempo, resumiu bem o que sente quando finalmente encontra uma escola preparada: "Quando a escola entende meu filho, ele para de ser 'o problema da turma' e vira apenas mais um aluno feliz." É essa mudança de olhar que o treinamento constante proporciona.
Defendo também que toda criança com sinais de TEA passe por uma anamnese detalhada, feita o quanto antes, com a participação de psiquiatras, psicólogos e fonoaudiólogos. Quanto mais cedo se identifica o perfil da criança, mais cedo começa o tratamento certo, e mais cedo a escola sabe como agir no dia a dia.
Os números do Rio Grande do Norte mostram a urgência do tema. O Censo 2022 do IBGE identificou 37.625 pessoas com autismo no estado. Entre 2020 e 2023, a proporção de estudantes autistas na Educação Especial potiguar saltou de 18,7% para 35%. Apesar disso, o RN já garante 100% de inclusão em classe comum no ensino fundamental e no ensino médio, um avanço que só se sustenta com capacitação constante de toda a equipe escolar.
Treinar não é gasto, é investimento no direito de aprender. É uma atitude simples, possível e urgente.
Dr. Daniel
Psiquiatra
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