
A publicação do pastor e teólogo José Gonçalves sobre o posicionamento de Frida Vingren a respeito do ministério feminino nas Assembleias de Deus reacendeu um debate histórico e teológico que vai muito além de uma simples postagem nas redes sociais. O comentarista da CPAD afirmou que, em cartas da missionária sueca — esposa de Gunnar Vingren, um dos fundadores da denominação no Brasil —, ela defendia o direito da mulher pregar, mas não o de exercer liderança ou pastorear.
A declaração, no entanto, encontrou resistência. O pastor Geremias Couto — teólogo, jornalista e uma das vozes mais respeitadas no debate sobre a história do pentecostalismo brasileiro — contestou publicamente a interpretação de José Gonçalves.
“Data máxima vênia, é uma inferência do pastor. As cartas de Frida não dizem isso textualmente.”
O peso das palavras
Em sua réplica, Geremias Couto foi categórico ao afirmar que a posição atribuída a Frida Vingren — a de defender a pregação feminina, mas não o pastorado — não aparece de forma explícita nos escritos da missionária.
“Também tenho arquivos. Citá-los não basta. É preciso citação textual, diferentemente de inferência.”
O que se sabe sobre Frida Vingren
A história de Frida Vingren é marcada por pioneirismo e sofrimento. Ela não foi apenas a esposa de Gunnar Vingren; foi uma líder de fato. Quando o marido se ausentava para visitar campos missionários, Frida substituía-o pregando e dirigindo os cultos e trabalhos oficiais. Ela também dirigia cultos dominicais na Casa de Detenção no Rio de Janeiro e era reconhecida como uma excelente pregadora, exercendo grande carisma sobre seus ouvintes.
Em 2024, a Assembleia de Deus reconheceu oficialmente Frida Vingren como pastora em uma cerimônia que contou com a leitura de um documento histórico — leitura feita, justamente, pelo próprio Geremias Couto. O reconhecimento oficial, no entanto, não resolve as ambiguidades sobre o que ela realmente pensava sobre a ordenação feminina.
Ao ser questionado sobre o posicionamento de Frida diante das cartas, Geremias Couto respondeu:
“O que eu posso dizer, previamente, é enfatizar o quanto Frida Vingren sofreu, as injustiças cometidas contra ela simplesmente por exercer o ministério em seu sentido mais amplo, inclusive no pastoreio durante as ausências do marido.”
O debate que divide as Assembleias de Deus
A controvérsia expõe uma tensão que atravessa o movimento assembleiano até hoje. De um lado, os que defendem a ordenação feminina apontam para o exemplo de Frida Vingren e de outras mulheres que, na prática, já exerceram funções pastorais. De outro, os que se opõem à ordenação de mulheres argumentam que a tradição e a hermenêutica das cartas paulinas não permitem tal prática.
O próprio José Gonçalves, em sua publicação, reconheceu que “o que foi considerado um grande problema no seu tempo, hoje é amplamente aceito” — uma afirmação que, para muitos, já indica um movimento em direção a uma posição mais inclusiva.
No entanto, a pergunta que fica é: essa “aceitação” se baseia em uma leitura correta das fontes históricas ou em uma interpretação que pode ter ido além do que Frida Vingren realmente escreveu?
A necessidade de transparência histórica
O pastor Geremias Couto também sugeriu que as cartas de Frida Vingren se tornem públicas para que todos possam analisá-las em sua integralidade:
“Certamente elas se tornarão públicas de alguma forma.”
Enquanto isso, o debate sobre o ministério feminino nas Assembleias de Deus continua. E a figura de Frida Vingren — missionária, pregadora, líder e, para muitos, pastora — permanece no centro dessa discussão, como um testemunho vivo de que a história da igreja é mais complexa do que qualquer interpretação isolada pode capturar.
JM Notícias
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