sábado, 18 de julho de 2020

Pastor Milton Ribeiro, novo ministro da Educação, promete ensino público laico



Novo ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro tomou posse nesta quinta-feira (16) e afirmou que assume um compromisso pela laicidade do ensino público. Ele prometeu também mais diálogo na pasta com instituições.

“Conquanto tenha a formação religiosa, meu compromisso que assumo hoje ao tomar posse está bem firmado e localizado em valores constitucionais da laicidade do estado e do ensino público”

Milton Ribeiro é o quarto ministro da Educação em pouco mais de um ano e meio de governo. Doutor pela faculdade de Educação da USP, ele não tem experiência em gestão pública.

O novo ministro é pastor da Igreja Presbiteriana Jardim de Oração de Santos, litoral de São Paulo.

O Pastor Milton Ribeiro, antes de assumir a pasta, foi investigado pela imprensa que descobriu vídeos publicados em redes sociais onde ele teria defendido educar crianças pela “dor” e também teria dito que homem tem que impor o caminho no lar.

No vídeo de uma pregação feita em abril de 2016, Ribeiro afirma que “essa ideia que muitos têm de que a criança é inocente é relativa”. Ao explicar o que vê como distinção entre castigo e disciplina, cita um trecho da Bíblia: “Castiga o teu filho enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-la”.

“Um tapa de um homem ou uma cintada de uma mulher podem ser muito mais fortes que uma criança pode suportar”. Em seguida, no vídeo da pregação, afirma: “Não estou aqui dando uma aula de espancamento infantil, mas a vara da disciplina não pode ser afastada da nossa casa”.

Nesta quinta (16), após negar defender a violência, Ribeiro afirmou que os professores perderam a autoridade no Brasil.

“Jamais falei em violência física na educação escolar e nunca defenderei tal prática, que faz parte de um passado que não queremos de volta”, disse ele.

“Isso aconteceu devido a implementação de políticas e filosofias educacionais equivocadas, que desconstruíram a autoridade do professor em sala de aula, o que agora existem são muitas vezes episódios de violência física de alguns maus alunos contra professores”, disse, sem citar a quais políticas se referia.

O novo minsitro também afirmou que pretender “abrir um grande diálogo para ouvir os acadêmicos e educadores”. A gestão de Abraham Weintraub ficou marcada por ataques a vários setores, como as universidades.

Doente, infectado pela Covid-19, Bolsonaro participou do evento por vídeo, do Palácio da Alvorada, de onde assinou a posse do ministro. A cerimônia não foi aberta à imprensa.

“Com toda certeza, a chegada de um ministro voltado para o diálogo, usando a sua experiência e querendo o melhor para as crianças, esse entendimento se fará presente”, disse Bolsonaro.

O MEC estava sem ministro desde 18 de junho, quando Abraham Weintraub foi demitido do cargo. Bolsonaro nomeou, mas não deu posse, a Carlos Alberto Decotelli, que pediu demissão após virem à tona falsidades em seu currículo.

Na quarta (15), Ribeiro participou de reunião com o ministro Paulo Guedes (Economia) e parlamentares sobre a renovação do Fundeb, mecanismo de financiamento da educação básica.

Integrantes do MEC dizem, nos bastidores, esperar alterações na equipe sob sua gestão. O secretário-executivo da pasta, Antonio Vogel, já anunciou que deixa o cargo que ocupa desde abril de 2019, quando Weintraub assumiu o MEC.

O governo tenta dar um caráter técnico à escolha de Ribeiro para o MEC e também dar acenos a grupos de apoio, como os evangélicos. Dessa forma, ele não vai mexer em posições de influência da ala ideológica do governo e também daquelas oriundas de negociações políticas.

Dessa forma, a presidência do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) permanece sob comando do centrão, bloco que Bolsonaro se aproximou. A secretaria de Alfabetização também continua com Carlos Nadalim, aluno do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo.

Como experiência acadêmica, Ribeiro foi vice-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, entre 2000 e 2003. No mesmo período, foi diretor da área de especializações da instituição.

Ele ainda fez parte do conselho do Instituto Presbiteriano Mackenzie, órgão mantenedor da universidade, em dois períodos: entre 1994 e 2000 e a partir de 2015 —o Mackenzie informou que ele renunciaria ao cargo com a posse no MEC.

Sua atuação acadêmica mantém ligação mais ligada à religião do que a políticas de educação pública. No mestrado, no Mackenzie, pesquisou liberdade religiosa. Em seudoutorado, finalizado em 2006, dedicou-se a examinar o calvinismo no Brasil e a relação com a educação. Também aparecem no currículo duas especializações sobre o Velho Testamento.

A única disciplina que ele teria lecionado, também no Mackenzie, foi ética e disciplina, em 2001.

Desde maio de 2019, ele é membro da Comissão de Ética da Presidência da República. Sua chegada ao governo se deve ao patrocínio dos ministro Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e André Mendonça (Justiça), também pastor presbiteriano.

O novo ministro chega ao MEC em um cenário crítico. A pandemia de Covid-19 levou ao fechamento de escolas, exige esforços para manter o ensino e acarretará em queda de recursos.

Milton Ribeiro também terá que fazer um esforço para construir pontes com o Congresso, que analisa na próxima semana a renovação do Fundeb. Também será necessário melhorar o diálogo com os secretários de Educação e com as universidades—cuja relação foi desgastada por Weintraub.

Fonte: Folha de S. Paulo com adaptações de Folha Gospel

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