domingo, 11 de novembro de 2018

Psicóloga defende “família tradicional” e é cassada pelo Conselho de Psicologia de Santa Catarina



Uma psicóloga de Santa Catarina, chamada Patrícia de Sousa Teixeira, inscrita no CRP-12/06777, foi processada e teve o seu registro profissional cassado pelo Conselho Regional de Psicologia do seu estado (12º região), após participar de uma gravação onde aparece a favor da “família tradicional” e contra a ideologia de gênero.

O vídeo foi divulgado em 2015 e posteriormente encaminhado (como denúncia) pela Comissão de Orientação e Fiscalização do CRP-12. A autarquia, por sua vez, entendeu que a psicóloga teria violado o Código de Ética profissional por se posicionar publicamente de forma “preconceituosa”.



Abaixo, segue a transcrição da fala de Patrícia Teixeira divulgada no vídeo, que segundo o CRP-12 justificou a sua cassação:

“Você já ouviu falar em ideologia de gênero? Sabe do que se trata? Essa ideologia diz que às crianças não nascem menino e menina, mas devem escolher essa opção ao longo das experiências em sociedade. Tal medida desconsidera até mesmo as diferenças anatômicas do corpo masculino e feminino, afirmando que a criança deve ser criada como neutra, e escolher ela mesma o seu gênero.

Uma das coisas que essa ideologia ignora, é que às crianças até certa fase da vida precisam de referenciais sólidos para que vivam a plenitude do gênero com o qual foram criadas. Cores, brinquedos, roupas e até mesmo o banheiro que usam informam sobre o seu gênero.


A ideologia de gênero, no entanto, contraria estas e outras necessidades, e atribui à escola a responsabilidade de pregar essa neutralidade, anulando, assim, o papel dos pais, os principais responsáveis por transmitir tais referenciais.

Sabemos que a orientação sexual de um adulto faz parte do seu exercício do livre arbítrio, mas suprimir informações na fase da infância é um grande empecilho para que a escolha seja clara, o que é um confronto à família tradicional, ferindo e muito o real livre arbítrio”.
Parecer técnico ou ideológico?

No parecer técnico contra a psicóloga Patrícia Teixeira, o qual tivemos acesso, o relator afirma que a profissional erra ao falar de uma “suposta” ideologia de gênero, chamando tal conceito de “falácia”. Todavia, parece que não a psicóloga, mas sim o próprio relator possui falta de compreensão acerca do assunto.

A ideologia de gênero, na verdade, enquanto conceito, é tema de discussão em vários países do mundo, estando nas palestras, artigos e entrevistas de especialistas renomados dentro e fora do Brasil, como Jordan Peterson, Doutor em Psicologia e professor da Universidade de Toronto, no Canadá; Dr. Paul McHugh, considerado um dos mais respeitados psiquiatras do mundo e a Dra. Michelle Cretella, ex-presidente do Colégio Americano de Pediatria, entre outros.

Livros como “The Global Sexual Revolution”, por exemplo, da socióloga alemã Gabriele Kuby, desde 2012 trás o conceito “ideologia de gênero” como parte de uma agenda política global que visa a modificação da conduta sexual humana.

Uma perspectiva diferente, mas que também trás o conceito “ideologia de gênero”, pode ser encontrada na obra “Gender Ideology and Psychological Reality”, de Melford E. Spiro, professor de antropologia psicológica da Universidade da Califórnia.

Além desses mínimos exemplos, é importante ressaltar que o conceito “ideologia de gênero” é fruto dos questionamentos científicos feitos ao pensamento de autores como Herbert Marcuse, Judith Butler, Shulamith Firestone, Katherine Millett, Michel Foucault, Simone de Beauvoir, entre outros, se constituindo, portanto, uma evolução histórica que contrasta ao que atualmente se entende por “gênero”.

Assim, ao desconsiderar o caráter interpretativo, amplo e, portanto, multifacetado do tema ideologia de gênero na sociedade atual, o relator contraria a diversidade de pensamento científico, onde a discórdia de perspectivas é objeto comum e saudável para a evolução do conhecimento, sendo esse um dos temas mais controversos da atualidade.
“Família tradicional”

O processo que cassou o registro de Patrícia Teixeira também questionou a utilização do termo “família tradicional”. Observe o trecho da fala dela:

“Sabemos que a orientação sexual de um adulto faz parte do seu exercício do livre arbítrio, mas suprimir informações na fase da infância é um grande empecilho para que a escolha seja clara, o que é um confronto à família tradicional”.

Patrícia simplesmente afirmou que existem, sim, famílias tradicionais (pai, mãe e filhos). Ela não entra no mérito do que isto significa de modo amplo, muito menos desmerece a existência de outras configurações familiares.

Ela apenas afirma que a ideologia de gênero – se for ensinada nas escolas públicas – confronta o direito que essas famílias (tradicionais) possuem de educar seus filhos com base no conhecimento científico e não ideológico. Ou seja, com base no fato de que o sexo biológico não pode ser dissociado do gênero, e que, portanto, a identidade de gênero precisa estar associada corretamente ao sexo de nascimento.

Mas, segundo o parecer “técnico” que fundamenta a cassação da psicóloga, a posição de Patrícia foi “preconceituosa”:

“Patrícia adota conjuntamente toda a pejora que os defensores dessa ideia, enquanto modelo correto de família, destilam contra a diversidade no campo do gênero e da sexualidade”, diz um trecho do documento, acrescentando que se tal posição fosse emitida apenas do ponto de vista pessoal, ela ainda assim estaria sendo “preconceituosa e desrespeitosa”.
Viés político-ideológico

O relatório que fundamenta o processo contra a psicóloga Patrícia Teixeira deixa evidente o viés ideológico no próprio texto. Por exemplo, logo em seu quarto parágrafo o autor afirma que “o caso aqui analisado e julgado é notadamente maior do que apenas os fatos que o compõe explicitamente”.

Em outras palavras, o texto diz claramente que o julgamento da denúncia não se deteu apenas ao mérito da ação, mas sim que ultrapassou o limite desse mérito, invadindo o campo do embate político-ideológico.

“É notadamente maior do que apenas os fatos…”, escreve o relator, que adiante diz haver um “debate no campo epistemológico que também ocorre em muitos outros contextos”. Mas, qual debate? Quais contextos?

O próprio texto responde, quando diz que “um dos catalisadores desse debate” é a ideologia de gênero. O relator então segue fazendo um resumo sobre o nascimento do termo “gênero”, fruto do feminismo do século XX, – criticando – a noção “naturalista” acerca da sexualidade humana. Ou seja, provavelmente o que a biologia nos diz, a saber, que só existem dois sexos: macho e fêmea.

“Contestar essa concepção (no mínimo) naturalista não é tarefa fácil, trata-se justamente do exercício de quebra de paradigmas no campo científico”, diz o parecer, sugerindo que precisamos superar essa concepção de sexualidade atrelada à biologia.

Em seguida, o relator associa os psicólogos que combatem a ideologia de gênero ao viés político “capitalista”, imprimindo veladamente sua crítica – política – no documento, tornando ainda mais evidente que a análise da denúncia foi contaminada pela concepção de mundo do próprio autor do parecer, onde até o tema da legalização do aborto é trazido implicitamente, como vemos abaixo:

“…a retórica sobre ‘ideologia de gênero’ se insere em um campo discursivo que congrega diferentes grupos, mais ou menos organizados, engajados na manutenção dos constructos de divisão de classes na sociedade capitalista, que é heteronormativa, em torno de uma agenda de resistência à libertação dos corpos (principalmente das mulheres) e de avanços nos direitos sexuais e reprodutivos”.
A psicóloga

Em contato com o Gospel Mais, a psicóloga Patrícia Teixeira confirmou estar se sentindo vítima de perseguição ideológica por viés político e também religioso. Ela é cristã evangélica, integrante da Igreja a Verdade que Liberta, em Santa Catarina.

“A maioria dos conselheiros são partidários, assim se expõem em suas redes sociais, sendo de esquerda. E também [há] um aparelhamento, já que a chapa do conselho é LGBT, e eles defendem tudo relacionada a essa causa”, disse ela, se referindo ao conselheiro responsável pelo relatório da sua cassação e outros que a endossaram.

“Eu percebo que teve motivação religiosa, apesar que na minha fala não demonstra nada de cunho religioso”, destaca Patrícia, que não desistirá de lutar em prol da sua liberdade de expressão.

Outra profissional que também se manifestou em defesa da colega foi a psicóloga Marisa Lobo. Em suas redes sociais, a autora do livro “Ideologia de Gênero na Educação” que há anos luta contra o ativismo político nos Conselhos de Psicologia, publicou um vídeo comentando a cassação da colega. Assista abaixo:
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Assista o vídeo que foi alvo do processo de cassação da psicóloga Patrícia Teixeira, abaixo:

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