domingo, 17 de dezembro de 2017

SUICÍDIO DE PASTORES - Motivações, reflexos, distorções e atitudes



Os últimos acontecimentos chocaram todo o mundo, em especial o mundo evangélico brasileiro, quando foi registrado o suicídio de dois pastores assembleianos na mesma semana, no Brasil, trazem uma série de interpretações e indagações que nos levam à necessidade de uma profunda reflexão sôbre o caso.


Primeiro entendo que o fato em sí é por demais desagradável, lamentável e funesto, uma verdadeira tragédia.

Do ponto de vista criminal, cabe agora às autoridades policiais confirmar, através das perícias técnicas o suicídio, e em se confirmando, creio que existe algum motivo oculto que, quem sabe ainda venha ser revelado, ou ficará no mesmo no obscurantismo, agora que algo deu errado, não hà a menor dúvida.


De qualquer maneira, por mais que os índices estatísticos de suicídios entre pastores tenham aumentado, isso ainda é um estranho acidente de percurso na vida de um líder, portanto não pode ser tido como a regra, mas uma excessão.


Acende-se então um "sinal amarelo", que sugere a urgência de uma maior atenção sôbre os motivos que fazem com que esses índices aumentem e quais ações precisam ser tomadas, tanto no campo institucional, como no individual e pessoal.


Quanto ao áudio viralizado como sendo do Pr. Júlio César, em sua Igreja dias antes do suicídio, já está claro e bem declarado não ser dele, afinal de contas não é a sua voz, mas de outra pessoa, que até prova em contrário, fez um desabafo mas não se suicidou, menos mal.


Porém, é de bom alvitre assumir, que para questão de análise, o áudio trouxe certa consternação, gerando um sentimento misto de pena e dó, fazendo com que a maior parte dos comentários emitidos nas redes sociais, justificassem a ação do suicídio, trazendo a culpa para o "sistema", para a atitude dos membros da Igreja, entre outras alegações, sendo que, caso o áudio fosse mesmo do pastor que se suicidou, isso só já era o suficiente para o transformar numa espécie de "mártir" da causa perante a opinião pública, ficando aberta a porta para a justificativa de uma série de outros suicídios acontecidos ou ainda possíveis de acontecer, o que julgo simplesmente lamentável.

Ainda que haja qualquer motivação, o suicídio será sempre injustificável. Não matarás, isso é mandamento. Não se destrói o templo do Espírito. Isso será sempre considerado como a fraqueza do ser humano em enfrentar seus problemas, uma espécie de antecipação do fim de uma insuportável dor, ainda que custe a vida terrena e coloque em risco a salvação eterna.


A Bíblia menciona algumas pessoas que cometeram suicídio, ou suicídio assistido:
Abimeleque (Juízes 9:54)
Sansão (Juízes 16:29-31)
Saul e o escudeiro (1 Samuel 31:3-6)
Aitofel (2 Samuel 17:23)
Zinri (1 Reis 16:18)
Judas (Mateus 27:5)
Tirando o caso de Sansão, que é bem particular, nenhum dos outros suicídios é abordado de forma favorável na Bíblia.
O intuito deste artigo, não é julgar quem tenha tirado a sua própria vida, aliás, nada mais por eles podemos fazer, a não ser orar para que o Espírito Santo console os familiares, mas tentar ajudar os vivos que passam por problemas e estão com o mesmo sentimento. Ainda que saibamos perfeitamente que esse julgamento só pertence a Deus, é uma posição no mínimo temerária e arriscada. Não se arrisca no quesito salvação.
"E, assim como aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo, depois disso o Juízo," Hebreus 9:27, portanto, na eternidade não há o que se remediar ou consertar.
Sôbre as falhas do sistema
Nosso sistema tem falhas, em especial o pentecostal, no entanto, não se muda um sistema centenário e o pior de tudo, descentralizado, com uma "canetada" de quem quer que seja. É preciso muita informação, reflexão e mudança de cultura, tanto na vida institucional como na pessoal.
Sôbre essas dificuldades deixo aqui três exemplos:
O primeiro: Na igreja que pela misericórdia de Deus hoje sou o pastor, a AD Cubatão, justamente por considerar o excesso de trabalho dos pastores, que por uma conjuntura cultural não tiravam férias, no último ano instituímos em reunião ministerial, que cada um deveria tirar quinze dias de descanso com a família, no ano e curso, pelo menos inicialmente, com a probabilidade de aumento gradual, provocando assim uma assimilação para a mudança cultural por parte das próprias congregações.
É preciso registrar que não foi fácil para nossa secretaria organizar a ordem cronológica desse descanso, pois muitos tiveram dificuldade de se manifestar para essa programação. Foi preciso procura-los e insistir para consignar a escala anual, espero que no novo exercício já flua com maior facilidade.
O segundo: Da mesma maneira, instituímos a segunda-feira como dia semanal de descanso do pastores, assim como todo trabalhador tem direito, mas também não tem sido fácil, alguns arrumam alguma coisa para tratar justamente nesse dia, mas estamos insistindo para que essa mudança de cultura se consolide, e isso passa por todos nós e também pela própria igreja, ainda não acostumada com a idéia, afinal de contas, já está no imaginário que pastor está ligado 24 horas por dia, 365 dias por ano... (rsrs)
O terceiro: Na Comadespe, convenção que estou presidente, já a alguns anos, foi criado o Conselho de apoio e orientação psicológica, justamente para assessorar a Mesa Diretora e os convencionais com orientações pertinentes, visando o bem estar de todos, como também apoiar nos casos específicos, cujos pastores tenham a necessidade desse apoio, lembrando que no conselho, temos pessoas capacitadas espiritualmente e profissionalmente para esse atendimento, além de outros pastores também capacitados e preparados profissionalmente, já catalogados em nosso próprio rol de filiados, para esse atendimento.
O estranho é que, fora as intervenções preventivas e coletivas, não temos conhecimento de qualquer filiado que tivesse procurado um membro do referido conselho para pedir ajuda, e isso já funciona hà pelos menos uns 8 anos.
Recentemente o Conselho elaborou uma pesquisa a ser respondida de forma anônima, colocando na pasta de cada convencional impresso com perguntas, no sentido de elaborar um perfil da nossa membresia, com o objetivo de elaborar palestras com orientações.
Confesso que não foi fácil arregimentarmos a devolução com as respostas, em percentual aceitável para consolidação da pesquisa e avaliação dos resultados, tivemos que insistir muito para alcançarmos a meta do Conselho.
Aí vem a pergunta que não quer calar, vergonha, inibição, cultura, os pastores julgam esse atendimento desnecessário? Agora é um bom momento para essa reflexão.
Da ordenação ministerial
Vejo a ordenação pastoral, não como uma questão de profissionalismo ou de amadorismo, mas de vocação e chamado divino, ainda que os vocacionados e ou chamados, tenham a obrigação de se prepararem para que estejam aptos para a função, afinal de contas a Bíblia registra o conselho do apóstolo Paulo a Temóteo:
"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" - 2 Temóteo 2: 15, e ainda:
"Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem." - 1 Timóteo 4:16
Vejamos que, antes de ter cuidado com a doutrina, o obreiro tem que ter cuidado dele mesmo, da sua saúde, do seu casamento, da sua família, da suas coisas pessoais, para que então tenha condições de cuidar das coisas da Igreja.
Em que pese não ter aqui a intenção julgar quem se suicida, quando se trata de um pastor, esse deixa uma ferida no seio da própria família, da Igreja onde serve ou dirige, presta um desserviço à pregação do evangelho, e ainda deixa um mal testemunho para a posteridade, atrelado eternamente à sua memória, motivo pelo qual, jamais poderemos ter como uma atitude normal e justificada.
Será que todos os intitulados "pastores" são vocacionados mesmo por Deus, ou alguns apenas conseguiram a honra do título atrelados a motivações escusas, quaisquer que sejam elas. Esses por certo não aguentarão mesmo a pressão natural da função, independente das falhas do sistema.
Veja o que disse Paulo:
"Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas aflições, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." - (II Cor 12.10)
"(…) em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes. Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?(…)" 2 Coríntios 11:23-29


"(…) E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. (…)" - 2 Coríntios 12:9-10

O que o apóstolo Paulo queria dizer isso? Porventura disse que permanecia satisfeito nas coisas que nos incomodam e afligem? Não seria isso não é coisa de masoquista, ou seja, de quem tem prazer em sofrer? Paulo não disse que tinha prazer no sofrimento propriamente dito, mas que continuava se sentindo satisfeito mesmo em meio a qualquer tipo de coisa que pudesse lhe causar aflição e sofrimentos.
Ele havia aprendido de Cristo que não é pela remoção das cousas que nos afligem que se pode sentir a verdadeira satisfação, alívio e alegria. Isso decorre de se sentir fortalecido pela graça do Senhor Jesus em meio a condições desagradáveis, especialmente daquelas que não podem ser removidas por nós, e que nem mesmo o próprio Deus está disposto a remover.
Na verdade o poder de Deus não precisa ser aperfeiçoado, em si. Deus é TODO-PODEROSO e já tem o poder absoluto e perfeito. O que o Paulo quer nos ensinar é que, este aperfeiçoamento somente irá se consolidar em nós, a partir do momento que o poder de Deus for cada vez mais presente em nossas vidas e ministério, agora, por outro lado, isso só acontecerá quando abrirmos mão do que consideramos ser as nossas "fortalezas".
Quando alguém envia currículo para se candidatar a qualquer vaga de emprego, após a aprovação da parte escrita, é encaminhado para os testes práticos e, dependendo da função, os testes serão físicos ou psicotécnicos, ou seja, se atividade for física é necessário saúde física o suficiente para aguentar o trabalho, mas se a atividade requer esforço mental, é necessário saúde mental suficiente para tal função.
Existem pessoas que não são doentes, nem física nem mentalmente, mas sua constituição pessoal, não alcança o biotipo necessário para o desempenho de determinadas funções.
A função pastoral é uma função de pressão mental, espiritual e às vezes até mesmo física, pois a pressão mental e espiritual finda por debilitar também o físico.
Nos dias atuais, temos ainda outras questões que atormentam os obreiros, entre elas, a proliferação de igrejas, a concorrência desleal, a crise financeira, a banalização da doutrina com finalidades proselitistas, quando muitos para se firmarem no "mercado", transformam a Igreja em um "balcão de negócios" e o rebanho em "clientela". Infelizmente, alguns por não aguentarem a pressão, abrem mão de princípios inegociáveis, para atender a demanda. Coisa lamentável, mas as escrituras trazem o remédio:
A Bíblia diz: "No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes." Efésios 6:10-13
Para não me estender mais, até porque o assunto é complexo e não se esgota tão fácil assim, finalizo esta reflexão, entendendo que, precisamos avançar no "modus operandis" do nosso sistema eclesiástico pentecostal, porque na realidade não há como se comparar e equiparar como o sistema das Igrejas tradicionais reformadas "à essa altura do campeonato", se é que me entendem, afinal a cultura do povo é outra, a administrativa do ministério não dá nem para comentar e, do ponto de vista dos resultados uma distância oceânica. Todo sistema tem dois lados, o seu bônus e o seu ônus correspondente, um caminho sem volta, mas que entendo pode ser melhorado e aperfeiçoado.
Do ponto de vista das ordenações, aqueles que se afastaram, precisam voltar às bases bíblicas, tanto do ponto de vista da verdadeira vocação, chamado divino, preparação e abandono de quaisquer outras práticas que causam distúrbios e desconforto futuros, para a Igreja, para o Ministério e para o próprio obreiro.
Quanto a nós pastores, precisamos buscar o equilíbrio em nossas atividades, equalizando de forma saudável o nosso tempo que se divide entre pessoal, família, igreja e preparo, e acima de tudo vivermos o que pregamos, acreditando piamente na Palavra e no poder de Deus, buscando isso em oração.
Ao longo da história da Igreja cristã, sempre foi assim.
Como temor e tremor,
Pr. Carlos Roberto Silva
Vosso conservo em Cristo.

Point Rhema

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