segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Cidade mais evangélica do Brasil rechaça “fé-espetáculo”

Arroio do Padre não faz jus ao nome. A cidade gaúcha há tempos não tem um sacerdote católico próprio. E, se tivesse, ele não teria muito trabalho por ali.
Estamos falando, afinal, do mais evangélico dos 5.570 municípios do Brasil, no qual 85,8% da população de 2.900 habitantes se declarou evangélica no Censo realizado em 2010, ante 7,7% de católicos, 4,7% sem religião e menos de 1% de espíritas e de testemunhas de Jeová.
O último grande levantamento nacional do IBGE registrou 22,2% adeptos desse segmento religioso no país todo, um batalhão de 42 milhões de fiéis. Sete anos depois, a participação evangélica inchou para 32%, segundo o Datafolha.
Mas os arroio-padrenses passam longe do neopentecostalismo da Universal do Reino de Deus e afins, filão que cresce a galope Brasil afora e se caracteriza por práticas por vezes vistas como performáticas por tradicionalistas, com promessas de curas milagrosas, libertação de possessões demoníacas e cultos para “sucesso financeiro”.
A cidade a 200 km de Porto Alegre, acessível por estradas de nomes como Morro do Inferno e Santa Coleta, foi alvo da imigração alemã no século 19. Não por acaso, professa sobretudo a fé luterana, derivada do prócer da Reforma Protestante, o ex-frade germânico Martinho Lutero.
Mais tradicionais, sim, mas não antiquados, como se nota na camisa do pastor Michael Kuff, 32, com a estampa de uma caveira com fones de ouvido e o conselho: “Não espere morrer para ouvir a voz de Deus” –ele é fã da Oficina G3, banda de rock cristão que se vende como “exemplo de grupo que conseguiu aliar o propósito de divulgar o Evangelho por meio da música pesada”.
Kuff deixa de lado o cortador de grama que usa no quintal de sua casa, vizinha à igrejinha luterana que comanda há seis meses, para conversar com a reportagem. Só não poda seu incômodo com denominações neopentecostais.
Em sua opinião, elas usam a fé como “moeda de troca”, como se o fiel pudesse exigir: “Sou bom cristão, então Deus é obrigado a me abençoar”. Lutero, lembra, peitou o papado meio milênio atrás justamente por rejeitar a ideia da salvação como item à venda (as indulgências da época).
Esse estilo mais agressivo de evangelização às vezes pega mal na sociedade, diz. “Hoje é um problema falar no banco que você é pastor. O gerente acha que você é ladrão.”
O também pastor luterano Aroldo Agner, 46, vê um ponto comum entre os diferentes segmentos evangélicos: a noção de família como “pai, mãe e filhos”. Não sabe dizer se há núcleos familiares “alternativos” na região.
“Se há [gay], não tenho conhecimento. Talvez em Pelotas tenha”, afirma sobre o município vizinho do qual Arroio do Padre se emancipou em 1996, após um plebiscito.
O que de fato não há muito por aquelas bandas: simpatizantes do PT. Na eleição de 2006, Arroio deu a Lula sua menor votação proporcional no país (11,5% contra 81,5% do tucano Geraldo Alckmin).
“Esta situação com a esquerda se complicou bastante. Em função da religiosidade aqui, complica [o apoio] a essa ala”, afirma o secretário de administração local, Loutar Prieb, que se locomove num carro com adesivos de crucifixo e peixe (antigo símbolo cristão). “Nosso primeiro prefeito era do PDT, mas teve origem na Arena [partido de suporte à ditadura militar].”
Em 2014, Aécio Neves (PSDB) perdeu a eleição presidencial, mas bateu Dilma (PT) ali por 70,5% a 30,5%. O atual prefeito, Leonir Baschi, é do DEM, e seus antecessores, do PFL (atual DEM) e do PP, siglas alocadas à direita no espectro político. “A ideia esquerdista não é muito bem-aceita pelos que são de origem [alemã]”, diz o pastor Agner.

EU BEBO, SIM

Chefe de gabinete do prefeito Baschi, Andiara Bonow, 27, é um retrato fiel da juventude local. Como o pastor Kuff, vê com reservas a ideia de uma fé que promete mundos e fundos para conquistar novos fiéis.
Aquela noção, afirma, de que “se tu entrar na igreja, vai ter carro, futuro promissor não é isso. Igreja é para ter paz de espírito”.
Ela cresceu dentro de uma congregação evangélica, num município cuja densidade demográfica é de um morador por 21 km², na típica vida interiorana de que “arranca cenoura da terra e come direto”. Conta que levou um choque quando foi estudar na universitária Pelotas. “Lá não tem isso de acordar e ir a um culto, [o pessoal] prefere festa.”
Não que Andiara seja ruim de copo. Zelosos da raiz germânica, os evangélicos de Arroio sabem valorizar um bom caneco de cerveja, diz ela, de pulôver roxo com “kiss” (beijo) inscrito no peito (o pingo no “i” é um coração) e uma tatuagem de “faith” (fé) no pulso.
Foi inclusive em um “bailão” no qual não faltou álcool que conheceu seu marido, de quem herdou o sobrenome Bonow –do clã que também batiza a cervejaria local, maior point da cidadezinha.
“Somos uma comunidade que consome muita cerveja”, ratifica o prefeito do município, com PIB per capita de R$ 14 mil em 2013 (quando a média brasileira era de R$ 26,5 mil), numa economia baseada na produção de tabaco. Baschi só faz uma ressalva: “É muito difícil encontrar alguém bêbado, fazendo escândalo”.
O pastor Kuff assina embaixo: “Muitos acham que é pecado dançar, beber cerveja, vinho. Mas o pecado não está nas coisas, mas dentro de si”. No templo sob sua guarda, frequentado por cerca de 200 fiéis, um calendário traz os dizeres: “Igreja sempre em reforma: agora são outros 500”.
A poucos metros, numa tarde de setembro, caminha um rapaz com uma garrafa PET em mãos (conteúdo desconhecido) e camisa que ostenta o coelhinho símbolo da revista “Playboy”. Como tantos ali, é também evangélico.

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